Bye bye Mariano

18jEsther Vivas

Estamos nas mãos de chouriços. Enquanto nos dizem que temos de ter paciência, que cedo chegará o final da crise, que agora sim veremos os, tão cacarejados, brotos verdes, damo-nos conta, já quase sem estupefação, que os mesmos que nos dão lições de austeridade, têm vivido, durante anos, na abundância e na opulência. Roubaram-nos, defraudaram-nos e enganaram-nos. E ainda têm a pouca vergonha de olhar para outro lado.

A paciência, contudo, é como um copo de água que se enche e enche e enche e, no final, acaba por se derramar. Nunca sabemos qual será a gota definitiva que fará as pessoas saírem à rua, em massa, e dizerem “já basta”. Mas o que é certo é que, mais tarde ou mais cedo, esse momento chega. Vimo-lo na Primavera árabe, o 15M, Occupy Wall Street e tantos outros. Como dizia o filósofo francês Daniel Bensaïd: “A revolução chega quando menos esperamos. A pontualidade não é o seu forte”. E assim é.

Ontem outra gota de indignação encheu o copo a cada dia mais saturado. Milhares de pessoas concentraram-se em frente às sedes do Partido Popular em todo o Estado para expressar a sua raiva e mal estar. E as palavras de ordem “Demissão”, “Não é um Governo, é uma máfia” e “Fora, fora, fora” escutaram-se de ponta a ponta da Península. As panelas, colheres, paelhas e demais utensílios de cozinha voltaram a repicar com essa ira contida a que nos têm acostumado estes tempos.

Ainda que a corrupção não tenha património. O poder, parece, engole tudo. O caso Bárcenas, Gürtel, Nóos, Palma-Areia, Fabra e o caso dos EREs, Mercurio, Pretoria e o caso Palau, ITV, Crespo, Pallerols. Bem vindos à Cosa Nostra, ao mais puro estilo ‘O Padrinho’. Não é em vão que um dos hashtags mais utilizados ontem no twitter foi #DemocraciaSinMafia e #AdiósMafia. Os inquilinos da rua Génova, Ferraz ou Còrsega conhecem bem as regras do jogo. A impunidade é sempre a sua última vaza.

A resignação, no entanto, vai-se extinguindo a golpe de envelopes, papéis, comissões, bónus. Enquanto ficamos desempregados, não chegamos ao final do mês, não podemos pagar a hipoteca, despejam-nos, não temos o que comer… assistimos a um novo ato desta tragédia que é a crise. E os papéis de Bárcenas, o último capítulo. O seu desenlace traz poucas surpresas. Os escritores têm-nos habituado a muito ruído e a poucas nozes e depois se te vi não me lembro. O que aconteceu com a tão apregoada entrada na prisão do banqueiro Miguel Blesa, que após quinze esquálidos dias entre grades já voltava a estar na rua. Oxalá surpreenda-nos agora o final do ato. Em todo o caso, dependerá de nós. Agir, mudar o guião, e poder dizer, finalmente: “Bye bye Mariano”.

*Publico.es, 19/07/2013. Tradução de Mariana Carneiro.


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