O Grande Irmão vigia-nos

espEsther Vivas

Já dizia George Orwell na sua novela ‘1984’: “O Grande Irmão tudo vê, tudo escuta e sobre tudo dispõe”. A sua novela é hoje uma realidade. Se o “poder”, essas elites políticas e económicas que nos conduziram à presente situação de bancarrota, considerarem oportuno, os nossos telefonemas podem ser escutados em qualquer momento, os nossos correios eletrónicos lidos por quem lhe aprouver e os nossos tuits monitorizados por quem quiser. As forças que mantêm “a Lei e a ordem”, a favor de uns poucos, farão, assim, o seu trabalho.

Muito se fala nestes dias da ciberespionagem internacional. De como Obama espia Merkel, de como Merkel se zanga com Obama, de como os tentáculos da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos chegam aos telefones de líderes mundiais e as suas escutas a países como Alemanha, Itália, França e agora sabemos que, também, ao Estado espanhol. Parece que assistimos a uma nova saga de Bourne. Com argumentos que nada têm que invejar às novelas de Robert Ludlum.

A Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, a CIA… são, uma vez mais, os maus muito ruins, mas não esqueçamos que o serviço de segurança (em Espanha, Centro Nacional de Investigação – CNI) não fica longe disso. Os meios de comunicação não têm problema em destapar os trapos sujos da espionagem internacional, agradeceríamos, também, que houvesse um pouco de luz sobre o CNI e investigação e informes sobre o seu orçamento, funções, objetivos. O Grande Irmão não está tão longe de nós.

Ontem os Anonymous Catalunha divulgaram um dossier com 38 relatórios do Cesicat (Centre de Seguretat da Informació de Cataluña) e dos Mossos de Esquadra [polícia da Catalunha], onde ficava clara a espionagem sistemática a ativistas sociais, meios de contra-informação, organizações políticas anticapitalistas… Nada de novo. A menos Estado social, mais Estado penal e punitivo. Hoje lutar contra os despejos, os despedimentos, os cortes na saúde e na educação, os CIEs (centros de internamento de estrangeiros)… é tipificado, pelo que vemos, de delinquência e, portanto, suscetível de ser espiado, denunciado e penalizado. Graças aos Anonymous, por divulgarem dados, palavras e números, algo que afinal já sabíamos. Curiosa maneira, ou não tanto, a da CiU [coligação política nacionalista de direita que governa a Catalunha] de avançar para novas estruturas de Estado.

Não há dinheiro para educação, nem para saúde, nem para habitação, mas há para espiar ativistas sociais que se opõem a injustas medidas de saída para a crise, geradoras de desemprego, fome e despejos. Sem ir mais longe, o orçamento deste ano do Governo espanhol para material antidistúrbios aumentou cerca de 1.700% em relação ao exercício anterior. Sobram os comentários.

Há anos atrás, os ativistas contra as câmaras de vídeo-vigilância, que proliferam nas nossas cidades e são uma subtil e invisível arma de controle social, já diziam: “Sorri. Estamos a gravar-te”. Continuaremos a sorrir ao sair à rua, ao falar ao telefone, ao escrever os nossos e-mails ou ao divulgar informação no facebook ou no twitter. Sorrindo até lhes destruirmos todos os seus micros e câmaras.

*Artigo publicado em Publico.es em 28 de outubro de 2013. Tradução de Carlos Santos para Esquerda.net.


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