Por que cercaremos o banco La Caixa a 11 de setembro?

pclcEsther Vivas

A 11 de setembro espera-se uma grande mobilização social na Catalunha a favor da independência. A Assembleia Nacional Catalã conta já com mais de 300 mil pessoas inscritas na La Via Catalana per la Independència, a corrente humana que unirá a Catalunha de norte a sul, ao longo de 400km, e que tem por objetivo, junto com a reivindicação de independência, pressionar as forças políticas para que a consulta do 2014 seja uma realidade e se estabeleça, de uma vez por todas, a sua data de celebração.

No marco desta iniciativa, o Processo Constituinte (Procés Constituent), impulsionado por Teresa Forcades e Arcadi Oliveres, tem convocado para um cerco à instituição bancária La Caixa, a máxima expressão do capital financeiro catalão. Trata-se de uma ação que se soma à La Via Catalana, com as suas próprias especificidades, assinalando que direitos sociais e nacionais são indissociáveis. Para muitos, uma Catalunha nas mãos dos mesmos de sempre, não nos serve. Queremos decidir, mas decidir sobre tudo.

Alguns dizem que primeiro vem a independência, e que depois logo veremos. Que com esta acabar-se-á o desemprego, a pobreza, a fome. Como se a independência fosse um maná divino. No entanto, trata-se de um argumento enganoso. Perguntem à Grécia, Portugal, Irlanda, Chipre ou ao próprio Estado espanhol. Ser independentes implica sacarmos de cima, também, as garras da Troika. A Europa do poder financeiro não dá liberdade aos povos. Não há independência verdadeira debaixo do jugo da dívida, da chantagem do prémio de risco e dos “mercados”.

Outros afirmam que “Madrid nos rouba”, e que se dissermos “Adeus a Espanha”, problema resolvido. Nada mais longe da realidade. A verdade é que temos os ladrões em casa e eles chamam-se Millet, Montull, Fainé, Crespo, Pujol, Brufau… e tantos outros. Onde vamos com um país nas mãos das 400 mesmas famílias de sempre? Avançar para a independência, implica perguntar: independência para quê e para quem. O debate aberto hoje na Catalunha é uma oportunidade para romper com o injusto marco legal estabelecido e para repensar as bases de nosso modelo de sociedade. Ser independentes sim, mas para abrir um processo constituinte que nos permita decidir, a todos, que país queremos.

Por estes e mais motivos, a 11 de setembro somos muitos os que vamos cercar o La Caixa. Fazemo-lo, também, porque os bancos são os máximos responsáveis pela crise e o La Caixa é o maior banco da Catalunha. Entidades financeiras que para se salvarem, afundaram-nos, à maioria, na mais absoluta miséria. Nunca seremos livres, nem independentes, se estamos submetidos às suas políticas.

Assim mesmo, é vox populi que o La Caixa não quer a consulta. A “paz social” é o máximo garante dos seus benefícios e o Estado espanhol a sua maior fonte de negócio. O Sr. Fainé e companhia, cuja legitimidade não passa pelo seu melhor momento, optaram por não dizer nada contra o processo independentista, não fosse o caso de se iniciar uma campanha cidadã contra eles. Porém, também não se posicionaram a seu favor. Que ninguém julgue que o La Caixa vai encabeçar o caminho para a independência. Se puder, seguramente, vai boicotá-lo. As suas lealdades demonstraram-se para com a família real, à frente do Reino de Espanha, garantindo um retiro dourado à Infanta Cristina na Suíça, como responsável pela Área Internacional da Fundação La Caixa, e aumentando-lhe o salário a 320.000 euros anuais, não vá a distância deprimi-la. E, no caso de apoiar este processo, se algum dia não lhe restar mais nenhuma alternativa, encarregar-se-á de moldá-lo segundo os seus interesses, contrários aos da maioria.

Que país teremos se à frente se encontra um banco que despeja famílias e nos defrauda mediante as ações preferenciais? O La Caixa diz-nos: “Tu és a estrela”. Se gosta tanto de nós por que razão nos rouba, aos catalães, anualmente milhões de euros através das auto estradas com portagens? Abertis, o principal operador do mercado catalão de portagens, tem no La Caixa o seu principal acionista. Que pouca independência teremos, nas mãos de ladrões. Por isso, no dia 11 de setembro, no marco de uma mobilização histórica, seremos muitos a cercar o La Caixa.

*Artigo público no Público espanhol em 05/09/2013.
Tradução de Mariana Carneiro. Esquerda.net.


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