A condição incomum de mãe desobediente

Esther Vivas | Outras palavras

A maternidade e tudo o que a envolve, gravidez, parto, amamentação… são questões que, muitas vezes, permanecem invisíveis no âmbito doméstico. A maternidade é considerada uma responsabilidade única das mães, que cada uma de nós deve resolver em sua vida privada. No entanto, a maternidade é altamente condicionada pelo contexto social em que nos encontramos e é afetada por desigualdades de gênero, classe e raça. A maternidade é uma questão política, pública e coletiva, e falo disso no livro Mãe desobediente. Um olhar feminista sobre a maternidade, publicado recentemente no Brasil pela Editora Timo.

O ideal materno hoje oscila entre a mãe abnegada, a serviço da família e dos filhos, e a superwoman, capaz de tudo para combinar emprego e educação. As mulheres não só devem ser mães abnegadas como as mães de sempre, mas também devem ter uma vida laboral e pública ativa e, claro, um corpo perfeito. A maternidade passa atualmente por uma intensificação neoliberal.

No entanto, onde está a verdadeira maternidade? Nossa cultura tem se baseado em silenciar a vida interior das mães, em particular os aspectos negativos ou ambivalentes, mas estes constituem parte intrínseca da maternidade. Por isso, é tão importante tornar visível o que significa o puerpério e a criança. Nós, como mães, temos o direito de errar, de reclamar, de não fazer tudo, e nossos interesses vão muito além das criaturas que temos. Mostrar e reconhecer a maternidade real, desmascarar o ideal da mãe perfeita, geradora de culpa e desconforto, é o primeiro passo para nos reconciliarmos com a experiência materna e ter uma vivência satisfatória.

Se tomarmos o princípio feminista de que o pessoal é político, o desafio é politizar a maternidade em um sentido emancipatório. Não se trata de idealizar o fato de ser mãe, mas de reconhecer seu valor social, político e econômico, o qual é sistematicamente negado, e apontar que a maternidade é responsabilidade de todos, de mulheres e homens, da sociedade em geral.

Instituição versus experiência materna

Ser mãe e feminista não parece fácil, pois a maternidade carrega um pesado fardo de abnegação, dependência e culpa, contra o qual as feministas dos anos 60 e 70 se rebelaram. Mas essa rebelião terminou com uma relação tensa, mal resolvida, com a maternidade que não enfrentou os dilemas que isso implicava, chegando até mesmo em alguns círculos feministas a cair em um certo discurso antimaternal e antireprodutivo.

No entanto, devemos diferenciar, como tão bem explicou a poetisa e ativista estadunidense Adrienne Rich, em meados dos anos 1970, em seu livro Nascemos de mulheres, entre “a instituição materna”, imposta e geradora de submissão, e “a experiência materna”. O desafio, do ponto de vista feminista, é acabar com a primeira e libertar a segunda, o que implica em constante confronto com as normas sociais estabelecidas. O problema não é a maternidade em si, mas o sentido em que ela é definida, imposta e restringida pelo patriarcado.

As mães têm sido historicamente consideradas objetos passivos, não sujeitos ativos com capacidade de decisão. Ver-nos como pessoas independentes, com necessidades próprias, deve fazer parte da reflexão feminista sobre a maternidade. “Meu corpo é meu” também na gravidez, parto e amamentação. Não pode ser que a capacidade de decisão das parturientes fique na porta de entrada dos centros hospitalares.

Nós mulheres conquistamos o direito de não ser mães, de acabar com a maternidade como um destino, agora devemos ser capazes de decidir como queremos viver essa experiência, independente das imposições do sistema.

“Mamãe desobediente”

Mamãe Desobediente é um livro onde questiono os ideais estabelecidos de maternidade que são inaceitáveis, servindo aos interesses do patriarcado e do neoliberalismo, e proponho a necessidade de olhar a experiência materna a partir de uma perspectiva feminista. Tirar do armário a verdadeira maternidade, com toda a sua dureza e contradições, desvendar alguns dos seus silêncios, como a perda da gravidez ou a depressão pós-parto, são outros objetivos.

No trabalho também falo sobre as dificuldades que as mulheres enfrentam hoje para serem mães (problemas de infertilidade, conciliação impossível…) bem como a complexa relação entre maternidade e feminismo, uma relação a ser repensada. A violência obstétrica que ocorre na assistência ao parto tem papel central, com dados sobre o elevado número de cesarianas, episiotomias ou partos instrumentais que são realizados, muitas vezes desnecessariamente. Uma violência obstétrica que coloco no quadro da violência de gênero. O livro conclui com um olhar sobre o aleitamento materno do ponto de vista da soberania alimentar, os obstáculos sociais e trabalhistas que encontramos para amamentar e os interesses econômicos por trás da indústria do leite artificial.

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